Domingo dia 01 de julho de 2007
Por sorte amanhã já não é semana que vem, é amanhã. Irei viajar e esse cansaço me abandonará assim que pousar em terras cearenses. Dormirei 15 ou 16 horas bem dormidas em minha primeira noite de nordeste e no dia 03 de julho de 2007 estarei pronta para trabalhar incessante em todas as idéias que passam por este corpo ansioso de mais idéias, desenhos, fotos, danças e tudo mais. Só não vou pensar em escola. Só isso que me coloco como restrição criativa.
Nos primeiros dias dou uma olhadinha numa praia próxima aqui, visito algo do centro acolá, umas igrejas, uns monumentos, e assim vamos. Se cada manhã eu visitar uma coisinha, estará de bom tamanho e terei a tarde toda para trabalhar. E a partir da segunda semana poderei trabalhar o dia todo.
Não quero perder a concentração que adquiri em São Paulo. Tão difícil foi para conquistá-la! E julho será inteiramente dedicado à arte!
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Segunda 02 de julho
Após longuíssima viagem, dores de ouvido nunca dantes ouvidas, nariz já dantes entupidos, meu corpo pede descanso de 48 horas de sono ininterrupto. Meus braços pedem calma, minhas pernas pedem alma, meu nariz paciência, minha cabeça travesseiro, minha lombar esticar-se, minhas células mar... mas meus amigos, todos muito afetuosos e queridos, pedem comemorações pela chegada. Sim, vamos comer algo em algum lugar, às 23h de uma segunda feira viajante.
Achei deselegante um cancelamento e não fosse minha exaustão total e irrestrita somada ao meu também total e irrestrito entupimento naso-ouvidístico, eu teria sido uma flor de pessoa. Mas creio que não deva ter sido assim, creio que eu deva ter sido um cactos de pessoa. Bem, alguma interação com o ambiente já se inicia.
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Terça 03 de julho
Eu dormi.
Acordei para alimentar-me.
E dormi.
Só.
Para não dizer que não falei de flores, à noite iniciamos a nossa pequena jornada de re-conhecimento da cidade e a partir daqui iniciou-se um fluxo de acontecimentos surpreendentes para mim e meu corpo (sim, ainda somos dois entes levemente separados, mas em processo intenso de reconciliação). Primeiríssimo, e essencial até agora nesta viagem, meu ouvido não só não desentupiu como também meu nariz mantêm-se fechado para balanço. Descansei, me alimentei bem, meditei, fui ver o mar, fui ver de novo, mas nada desentope esta porra. Isso contribuiu em grande medida para minha percepção da cidade: aérea, meio desatenta, surda. Todas as coisas me aconteceram nestes primeiros dias de forma meio cinematográfica. Eu sentei numa cadeirinha bem no centro de mim e fiquei vendo tudo suceder pela telinha de algumas polegadas dos meus óculos. A cidade realmente se colocou para mim, eu é que ainda não me ajeitei nela. Longe de esperar que eu me acostumasse ou adaptasse a ela, isso nem esta em questão. Sou uma estrangeira, nem sei o que significam acostumar-se ou adaptar-se nestas condições. Meus olhos e meus poros processaram tantas novas informações nesta primeira semana que aquele corpo que aportou por aqui não soube administrar com a eficiência que ele próprio acreditava ser capaz. Fui indo.... indo.... indo..... Aonde me levavam... eu fui indo.... Era isso que eu queria e que eu sabia fazer neste momento. Eu não contava com a cidade em mim. Não havia me preparado para despreparar-me. Não contava com o sol. Nem com a praia. E, olhe só, ao caminhar na praia pensei em muitas coisas interessantes para a escola; maneiras mais eficazes de organizar o material, modos mais interessantes de estruturar atividades, jeitos mais tranqüilos de lidar com as crianças. Na minha ignorância corpórea não adicionei em meus planos que iria viajar. E que isso era um ponto significativo do processo. Ao chegar havia amigos querendo estar comigo, conversar comigo, jantar comigo, apresentar-me ao sol, ao chão, as redes, ao camarão. O calor não, este apresentou-se per se. Tudo cuidadoso e carinhoso demais para que eu quisesse recusar, alegando cansaço, confusão ou qualquer outra coisa que meu corpo me alegava. E foi ótimo que as alegações se restringiram à acústica entre orelhas, na extensão até as solas, pois a cidade foi me tomando aos poucos. Fui percebendo sua concretude, suas dimensões, seus fluxos, seus tempos e principalmente percebi que ela tinha total influência no meu estado geral. Nada aconteceria daqueles meus planos se ela não me acontecesse primeiro. Foi uma revelação em mim essa vivência com o lugar. Não foi, nem é, o caso de fazer um registro artístico da residência em Fortaleza; a presença-vivência na cidade, como está se dando, já irá imprimir dados no trabalho que será (já está sendo?) realizado. Penso agora, sem poder conseguir precisar muito bem, que essas residências artísticas que vêem se sucedendo atualmente são interessantes não exatamente pela pitoresquice do lugar ou pelos novos elementos que essa condição irá te oferecer (até porque você precisa querer se relacionar como esse elementos), mas seu interesse reside no fato de que o estar neste local estrangeiro coloca condições para o corpo que fazem com que você se re-coloque; re-posicione; levemente re-pense suas verdades; re-configure-se para re-começar-se.
E de forma genuinamente inédita, encontre-se novamente com aquele mesmo você mesmo.
Ah, e com relação ao trabalho de arte que tanto iria ocupar meus cada-minutos-centímetros desta estada, este foi substituído por boas horas de preguiça na rede, caminhadas na areia fina que voava com o vento grosso, papos a qualquer hora e canto, passeios no centro e calor que amolece tudo até a pressa e se inicia com este que vos fala agora. Uma semana e um dia de Fortaleza depois de minha chegada.
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audrey hojda
10/07/2007